O teu país

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod


Cláudia Fernandes

Escola

Não Identificada

País

Portugal

Felizmente Há Luar

Resumo do trabalho

Resumo/Apontamentos sobre a obra Felizmente há Luar, realizado no âmbito da disciplina de Português (12º ano).


Trata-se de um drama narrativo de carácter épico que retrata a trágica apoteose do movimento liberal oitocentista, em Portugal. Apresenta as condições da sociedade portuguesa do séc. XIX e a revolta dos mais esclarecidos, muitas vezes organizados em sociedades secretas. Segue a linha de Brecht e mostra o mundo e o homem em constante transformação; mostra a preocupação com o homem e o seu destino, a luta contra a miséria e a alienação e a denúncia da ausência de moral; alerta para a necessidade de uma sociedade solidária que permita a verdadeira realização do homem.

Resumo dos actos:

Acto I:

Do conjunto do povo destacam-se as personagens Manuel, Rita, dois populares, uma velha e Vicente. O diálogo entre estas personagens incide sobre a miséria em que vivem e a impotência de a solucionar. O som dos tambores faz com que os populares comecem a falar de Gomes Freire de Andrade. Todos pareciam ter Gomes Freire como ídolo menos Vicente, que, nas suas longas tiradas, destrói a imagem do general como homem perfeito.

Entretanto, o povo exaltado com a presença de dois polícias dispersa, policias esses que vinham recolher informações e que se aproximam de Vicente. O diálogo entre as três personagens mostra-nos que Vicente orienta a sua vida em função do poder e do dinheiro. Durante um primeiro diálogo com os polícias, Vicente admite que o povo o “enoja” e que lhe mete pena pois fazem-no recordar de como era, referindo ainda que se arrepende do seu nascimento e do local onde nasceu. Perante esta fraqueza, os dois polícias comunicam a Vicente que o governador do reino, D. Miguel Pereira Forjaz, lhe quer falar para, provavelmente lhe incumbir de uma missão. Vicente imagina-se já chefe da polícia e, face ao comentário do primeiro polícia de que, tendo sido portadores de boas notícias poderiam ser recompensados, lembra a arrogância dos poderosos, mesmo quando a sua origem é humilde.

Em presença de D. Miguel e do Principal Sousa (representante da igreja) e interpelado pelo primeiro acerca da eventual existência de um agitador político junto do povo, Vicente especula, dando algumas informações dispersas. D. Miguel acaba por lhe dar uma missão: vigiar a casa do seu primo, o general Gomes Freire de Andrade, para os lados do Rato. Vicente sai e D. Miguel, o Principal Sousa e o Marechal Beresford, militar inglês, dialogam sobre o estado da nação, onde os perigos das novas ideias subversivas que destruirão o país e o reino de Deus. Chegam, então, à conclusão de que é necessário encontrar um nome, alguém que possam acusar de ser o responsável pelo clima de insurreição que alastra pelo país.

De novo a sós, os três governadores dialogam sobre o castigo a aplicar a quem ousa ser inimigo do reino, tomando forma a ironia de Beresford que, sem inibições, desprestigia os Portugueses e assume despudoradamente a sua sobranceria e o seu interesse meramente económico.

Andrade Corvo, Morais Sarmento e Vicente entram rotativamente em cena, dando conta das suas negligências, inicialmente pouco consistente, mas que acabam por se concretizar na indicação de um nome, o general Gomes Freire de Andrade. Está encontrada a vítima e só resta a “Morte ao traidor Gomes Freire de Andrade”.

Acto II:

Este acto inicia-se com uma cena colectiva. Manuel revela a sua impotência perante a prisão do general e constata que a situação de miséria em que vivem é ainda mais desesperante. Os restantes populares acompanham-no no seu desalento, até uma nova intervenção policial, que dispersa o grupo.

Rita, mostra a sua piedade relativamente a Matilde e suplica a Manuel que não se meta em coisas que não são da vida dele.

Matilde surge, proferindo um discurso solitário, em que relembra os momentos de intimidade vividos com o seu general e ironiza dizendo que, se o seu filho ainda fosse vivo, lhe ensinaria a ser cobarde.

Sousa Falcão surge diante de Matilde, confessando o seu desânimo e desencanto face ao país em que vive. Este despede-se de Matilde e parte em busca de notícias do amigo, deixando-a dolorosamente triste, mas com vontade de enfrentar o poder.

Diante de Beresford, que aproveita a situação para humilhar a mulher do general, Matilde suplica a sua liberdade.

Matilde, desesperada, aproxima-se dos populares, que, indiferentes à sua presença, evocam Vicente, agora feito chefe da polícia. No entanto, Manuel e Rita, após momentos de recriminação a Matilde, de que a oferta de uma moeda como esmola é símbolo, manifestam-lhe a sua solidariedade moral.

Sousa Falcão reencontra-se com Matilde e revela-lhe que ninguém pode ver o general, já encarcerado numa masmorra sombria em S. Julião da Barra, sem direito a julgamento. Matilde, inconformada, recorda, então, a saia verde que o general um dia lhe oferecera em Paris e, como que recuperada do seu desgosto, decide enfrentar uma vez mais o poder. O seu objectivo é exigir um julgamento e, para isso, dirige-se ao principal Sousa, desmontando a mensagem evangélica, para lhe mostrar quanto o seu comportamento é contrário aos ensinamentos de Cristo. De forma arrogante, Matilde dirige as últimas palavras ao principal Sousa, amaldiçoando-o. Sousa Falcão anuncia que a execução do general e dos restantes prisioneiros está próxima. Matilde, em desespero, pede, uma vez mais, pela vida do general e D. Miguel Forjaz informa que a execução se prolongará pela noite, “mas felizmente há luar”. Matilde inicia, então um discurso de grande intensidade dramática. Os populares comentam a execução do general: recusaram-lhe o fuzilamento e vai ser queimado.

O acto termina com Sousa Falcão e Matilde em palco: o amigo do general elogia-o; Matilde despede-se do homem que amou – “Dá-me um beijo – o último na Terra – e vai! Saberei que lá chegaste quando ouvir os tambores!”, e lança palavras de coragem e ânimo ao povo – “Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira (…) felizmente há luar!”

Personagens:

Na obra Felizmente Há Luar! é possível aglutinar as personagens em grupos, de acordo com a função que desempenham ao longo da acção. Desta forma existem três grupos importantes: o povo; os traidores do povo ou delatores e os governadores.

Povo:

Constituído por:

Matilde de Sousa: companheira de todas as horas de Gomes Freire, é ela que dá voz à injustiça sofrida pelo seu homem. As suas falas, imbuídas de dor e revolta, constituem também uma denúncia da falsidade e da hipocrisia do Estado e da Igreja. Todas as tiradas de Matilde revelam uma clara lucidez e uma verdadeira coragem na análise que faz de toda a teia que envolve a prisão e condenação de Gomes Freire. No entanto, a consciência da inevitabilidade do martírio do seu homem (e daí o carácter épico da personagem de Gomes Freire) arrasta-a para um delírio final em que, envergando a saia verde que o general lhe oferecera em Paris (símbolo de esperança num futuro diferente), Matilde dialoga com Gomes Freire vivendo momentos de alucinação intensa e dramática. Estes momentos finais, pelo carácter surreal que transmitem, são também a denúncia do absurdo a que a intolerância e a violência dos homens conduzem.

Sousa Falcão: inseparável amigo, sofre junto de Matilde, assume as mesmas ideias que Gomes Freire, mas não teve a coragem do general. Representa a amizade e a fidelidade; é o único amigo de Gomes Freire de Andrade que aparece na peça; ele representa os poucos amigos que são capazes de lutar por uma causa e por um amigo nos momentos difíceis.

Manuel, Rita: símbolos do povo oprimido e esmagado, têm consciência da injustiça em que vivem, sabem que são simples joguetes nas mãos dos poderosos, mas sentem-se impotentes para alterar a situação. Vêem em Gomes Freire uma espécie de Messias e daí, talvez, a sua agressividade em relação a Matilde, após a prisão do general, quando ela lhes pede que se revoltem e que a ajudem a libertar o seu homem. A prisão de Gomes Freire é uma espécie de traição à esperança que o povo nele depositava. Podem também simbolizar a desesperança, a desilusão, a frustração de toda uma legião de miseráveis face à quase impossibilidade de mudança da situação opressiva em que vivem.

Antigo Soldado, Populares: Personagens colectivas que representam o analfabetismo e a miséria. Escravizado pela ignorância não tem liberdade. Desconfiam dos poderosos mas são impotentes face à situação do país (não há eleições livres, etc.)

Delatores:

Representam os “bufos” do regime salazarista.

Constituído por:

Vicente, o traidor: elemento do povo, trai os seus iguais, chegando mesmo a provocá-los, apenas lhe interessando a sua ascensão político-social. Apesar da repulsa/antipatia que as atitudes de Vicente possam provocar ao público/leitor, o que é facto é que não se lhe pode negar nem lucidez nem acuidade na análise que faz da sua situação de origem e da força corruptora do poder. Vicente é uma personagem incómoda, talvez porque nos faça olhar para dentro de nós próprios, acordando más consciências adormecidas.

Andrade Corvo e Morais Sarmento: são os delatores por excelência, aqueles a quem não repugna trair ou abdicar dos ideais, para servirem obscuros "propósitos patrióticos".

Governadores:

Representam o poder político e são o cérebro da conjura que acusa Gomes Freire de traição ao país; não querem perder o seu estatuto; são fracos, mesquinhos e vis; cada um simboliza um poder e diferentes interesses; desejam permanecer no poder a todo o custo

Constituído por:

Beresford: personagem cínica e controversa, aparece como alguém que, desassombradamente, assume o processo de Gomes Freire, não como um imperativo nacional ou militar, mas apenas motivado por interesses individuais: a manutenção do seu posto e da sua tença anual. A sua posição face a toda a trama que envolve Gomes Freire é nitidamente de distanciamento crítico e irónico, acabando por revelar a sua antipatia face ao catolicismo caduco e ao exercício incompetente do poder, que marcam a realidade portuguesa.

Principal Sousa: para além da hipocrisia e da falta de valores éticos que esta personagem transmite, o Principal Sousa simboliza também o conluio entre a igreja, enquanto instituição, e o poder e a demissão da primeira em relação à denúncia das verdadeiras injustiças.

D. Miguel: é o protótipo do pequeno tirano, inseguro e prepotente, avesso ao progresso, insensível à injustiça e à miséria. Todo o seu discurso gira em torno de uma lógica oca e demagógica, construindo verdades falsas em que talvez acabe mesmo por acreditar. Os argumentos do "ardor patriótico", da construção de "um Portugal próspero e feliz, com um povo simples, bom e confiante, que viva lavrando e defendendo a terra, com os olhos postos no Senhor", são o eco fiel do discurso político dos anos 60. D. Miguel e o Principal Sousa são talvez as duas personagens mais execráveis de todo o texto pela falsidade e hipocrisia que veiculam.

Gomes Freire: homem instruído, letrado, um militar que sempre lutou em prol da honestidade e da justiça. É também o símbolo da modernidade e do progresso, adepto das novas ideias liberais e, por isso, considerado subversivo e perigoso para o poder instituído. Assim, quando é necessário encontrar uma vítima que simbolize uma situação de revolta que se adivinha, Gomes Freire é a personagem ideal. Ele é o símbolo da luta pela liberdade, da defesa intransigente dos ideais, daí que a sua presença se torne incómoda não só para os "reis do Rossio", mas também para os senhores do regime fascizante dos anos 60. A sua morte, duplamente aviltante para um militar (ele é enforcado e depois queimado, quando a sentença para um militar seria o fuzilamento), servirá de lição a todos aqueles que ousem afrontar o poder político e também, de certa forma, económico, representado pela tença que Beresford recebe e que se arriscaria a perder se Gomes Freire chegasse ao poder.

Frei Diogo: homem sério; representante do clero; honesto – é o contraposto do Principal Sousa.

Polícias: representam a PIDE.

Contextualização histórica do assunto da obra

Luís de Sttau Monteiro descontente com a situação política e social existente na sua época, utiliza assim a opressão vivida durante a ditadura de Salazar, onde através do recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no início do século XIX, coloca em destaque as injustiças do seu tempo. Como não era possível escrever sobre a época em que estava (1961), Luís de Sttau Monteiro aborda uma época com características semelhantes (1817), fazendo um paralelo entre estes dois tempos. Assim, o recurso à distanciação histórica permitiu-lhe colocar em destaque as injustiças do seu tempo, sem as referir. As pessoas ao verem a peça associavam os acontecimentos da peça com o presente.

“Felizmente Há Luar” tem como cenário o ambiente político dos inícios do século XIX: em 1817. A Revolução Francesa de 1789 e as invasões napoleónicas que levam Portugal à indecisão entre os aliados e os franceses culminam no exílio de D. João VI que foge para o Brasil para evitar a rendição. Depois da 1ª invasão, a corte pede a Inglaterra, um oficial para reorganizar o exército, surgindo assim o GENERAL BERESFORD. Uma conspiração, encabeçada por Gomes Freire de Andrade, que pretendia o regresso do Brasil do rei D. João VI e que se manifestava contrária à presença inglesa, foi descoberta e reprimida com muita severidade: os conspiradores, acusados de traição à pátria, foram queimados publicamente e Lisboa foi convidada a assistir. Luís de Sttau Monteiro marca uma posição, pelo conteúdo fortemente ideológico, e denuncia a opressão vivida na época em que escreve a obra, em 1961, precisamente sob a ditadura de Salazar. O recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no século XIX em que decorre a acção permitiu-lhe, assim, colocar também em destaque as injustiças do seu tempo e a necessidade de lutar pela liberdade.

Em “Felizmente Há Luar” percebe-se, facilmente, que a História serve de pretexto para uma reflexão sobre os anos 60, do século XX. Sttau Monteiro, também ele perseguido pela PIDE, denuncia assim a situação portuguesa, durante o regime de Salazar, interpretando as condições históricas que mais tarde contribuíram para a Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974. Tal como a conspiração de 1817, em vez de desaparecer com medo dos opressores permitiu o triunfo do liberalismo, também a oposição ao regime vigente nos anos 60, em vez de ceder perante a ameaça, resistiu e levou à implantação da democracia.

Carácter épico - Influência de Brecht:

A peça "Felizmente há luar" é uma peça épica, inspirada na teoria marxista, que apela à reflexão, não só no quadro da representação, como também na sociedade em que se insere. O teatro de Brecht pretende representar o mundo e o homem em constante evolução de acordo com as relações sociais, defende as capacidades do homem que tem o direito e o dever de transformar o mundo em que vive. Por isso, oferece-nos uma análise crítica da sociedade, procurando mostrar a realidade em vez de a representar, para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar posição. Estas características afastam-se da concepção do teatro aristotélico que pretendia despertar emoções, levando o espectador a identificar-se com o herói. O teatro moderno tem como preocupação fundamental levar os espectadores a pensar, a reflectir sobre os acontecimentos passados e a tomar posição na sociedade em que se insere. Surge assim a técnica do distanciamento que propõe um afastamento entre o actor e a personagem e entre o espectador e a história narrada, para que, de uma forma mais real e autêntica possam fazer juízos de valor sobre o que está a ser representado. Luís Sttau Monteiro pretende, através da distanciação, envolver o espectador no julgamento da sociedade, tomando contacto com o sofrimento dos outros. Observando Felizmente Há Luar! verificamos que Sttau Monteiro, evoca situações e personagens do passado (movimento liberal oitocentista em Portugal), usando-as como pretexto para falar do presente (ditadura nos anos 60 do século XX) e assim pôr em evidência a luta do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição.

Deste modo o espectador deve possuir um olhar crítico para melhor se aperceber de todas as formas de injustiça e opressões.

Didascálias:

Nesta obra, as didascálias assumem especial relevância, pois constituem a explicitação ideológica da peça. A par das palavras proferidas pelas personagens, surgem como explicação, denúncia e explicitação da linguagem destas.

Assim, as didascálias funcionam na obra como: explicações do autor, referências à posição das personagens em cena, indicações aos actores, caracterização das personagens, do tom de voz das personagens, indicação das pausas, saída ou entrada de personagens, apresentação da dimensão interior das personagens, indicações sonoras ou ausência de som, ilações que funcionam como informações e como forma de caracterização das personagens, sugestões do aspecto exterior das personagens, movimentação cénica das personagens, expressão fisionómica dos actores, linguagem gestual a que, por vezes, se acrescenta a visão do autor, expressão do estado de espírito das personagens.

Existem dois tipos de didascálias que podem ser observadas na obra: didascálias internas e externas. As didascálias internas servem para acompanhar as falas das personagens, surgem em itálico e por vezes entre parêntesis, enquanto as didascálias externas servem para dar uma análise interpretativa do texto principal.

Exemplos de didascálias internas:

  • (Pausa)
  • (Avança e detém-se junto duma mulher ainda nova, que dorme, no chão, coberta por uma saca)
  • (Sobe a um caixote)
Exemplos de didascálias externas:
  • Fala alto, em to m de triunfo.
  • Fala com escárnio.
  • Estende o braço num gesto que, não sendo o da bênção, deve, todavia, sugeri-lo.

Simbologia:

Saia verde: A saia encontra-se associada à felicidade e foi comprada numa terra de liberdade: Paris, no Inverno, com o dinheiro da venda de duas medalhas. A saia é uma peça eminentemente feminina e o verde encontra-se destinado à esperança de que um dia se reponha a justiça.   Sinal do amor verdadeiro e transformador, pois Matilde, vencendo aparentemente a dor e revolta iniciais, comunica aos outros esperança através desta simples peça de vestuário. O verde é a cor predominante na natureza e dos campos na Primavera, associando-se à força, à fertilidade e à esperança.

Título: Duas vezes mencionado, inserido nas falas das personagens (por D.Miguel, que salienta o efeito dissuasor das execuções e por Matilde, cujas palavras remetem para um estímulo para que o povo se revolte).

A luz: Como metáfora do conhecimento dos valores do futuro (igualdade, fraternidade e liberdade), que possibilita o progresso do mundo, vencendo a escuridão da noite (opressão, falta de liberdade e de esclarecimento), advém quer da fogueira quer do luar. Ambas são a certeza de que o bem e a justiça triunfarão, não obstante todo o sofrimento inerente a eles. Se a luz se encontra associada à vida, à saúde e à felicidade, a noite e as trevas relacionam-se com o mal, a infelicidade, o castigo, a perdição e a morte. A luz representa a esperança num momento trágico.

Noite: Mal, castigo, morte, símbolo do obscurantismo

Lua: Simbolicamente, por estar privada de luz própria, na dependência do Sol e por atravessar fases, mudando de forma, representa: dependência, periodicidade. A luz da lua, devido aos ciclos lunares, também se associa à renovação. A luz do luar é a força extraordinária que permite o conhecimento e a lua poderá simbolizar a passagem da vida para a morte e vice-versa, o que aliás, se relaciona com a crença na vida para além da morte.

Luar: Duas conotações: para os opressores, mais pessoas ficarão avisadas e para os oprimidos, mais pessoas poderão um dia seguir essa luz e lutar pela liberdade.

Fogueira: D. Miguel Forjaz – ensinamento ao povo; Matilde – a chama mantém-se viva e a liberdade há-de chegar.

Fogo: é um elemento destruidor e ao mesmo tempo purificador e regenerador, sendo a purificação pela água complementada pela do fogo. Se no presente a fogueira se relaciona com a tristeza e escuridão, no futuro relacionar-se-á com esperança e liberdade.

Moeda de cinco reis: símbolo do desrespeito que os mais poderosos mantinham para com o próximo, contrariando os mandamentos de Deus.

Tambores: símbolo da repressão sempre presente.

Sinos: Traduzem o perverso envolvimento da Igreja nos assuntos do Estado, contribuindo para a repressão imposta sobre o povo (anunciam a morte de Gomes Freire). Contribuem para a denúncia da deturpação da mensagem evangélica ao serviço de interesses mesquinhos e materiais.

Cadeiras: Descritas como «pesadas e ricas com aparência de trono», simbolizam a opulência, o poder tirânico e absolutista dos governadores e a violência e caducidade do sistema monárquico.

Tempo

Tempo da Diegese/história dramática: 1817

  • Crise generalizada a todos os níveis: político, militar, económico e ideológico.
  • Ausência do Rei no Brasil;
  • Junta governativa/falta de identidade nacional;
  • Permanência de oficiais ingleses nos postos do exército português;
  • Clima de recessão económica e de instabilidade social decorrente das invasões francesas (1807, 1809, 1810);
  • Crise económica devido à independência económica do Brasil;
  • Miséria e ruína agrícola, comercial e industrial;
  • Perseguições políticas constantes reprimindo a liberdade de expressão, a circulação de ideias e qualquer tentativa de implantação do liberalismo;
  • Rodeados de delatores que se vendiam a baixo preço, os governadores do reino procuravam nomes de conspiradores. Não interessava quem era acusado e tão pouco importava a inocência ou a culpa de cada um. A necessidade de manter a ordem, de evitar a rebelião era superior à justiça dos actos.
  • Grande poder e corrupção da Igreja, ideia da origem divina dos reis;
  • Gérmenes do movimento liberal.

Tempo da Escrita: anos 60 do séc.XX:

  • Início da guerra colonial em Angola (1961);
  • Múltiplos afloramentos de contestação interna (greves, movimentos estudantis);
  • Pequenos «golpes palacianos» prenunciadores de clivagens internas, no seio do próprio poder;
  • Os “bufos”, apesar de disfarçados, colhiam informações e denunciavam; a censura e severas medidas de repressão e tortura, condenando-se até sem provas.
  • Crescente aparecimento de movimentos de opinião organizados, a par da oposição política que, embora reprimida, fazia sentir a sua voz, nomeadamente na existência de eleições livres e democráticas;

Tempo da Acção:

  • Grande concentração do tempo.
  • Acto I – a acção decorre em dois dias.
  • Acto II – a acção decorre em cinco meses.

Espaço

A mutação de espaço físico é sugerida essencialmente pelos efeitos de luz. O espaço cénico é pobre, reduz-se a alguns objectos que têm a função de ilustrar o espaço social. Esta simplicidade parece ser intencional e mais importante que os cenários são a intensidade do drama que é realçada por esta economia de meios.

Acto I:

  • Ruas de Lisboa (onde se encontram os populares)
  • Local onde D.Miguel Forjaz recebe Vicente
  • Palácio dos governadores do Reino, no Rossio
  • Referências a casa de Gomes Freire lá para os lados do Rato e espaços frequentados pelos revolucionários conspiradores – café no Cais do Sodré; Botequim do Marrare; loja maçónica na rua de São Bento.

Acto II:

  • Ruas de Lisboa;
  • Casa de Matilde de Melo;
  • À porta da casa de D. Miguel Forjaz;
  • Local onde Matilde fala com o Principal Sousa;
  • Alto da serra onde Matilde e Sousa Falcão observam as fogueiras que queimam os revolucionários;
  • Referências a masmorra de S. Julião da Barra, Campo de Santana para onde são levados os presos, aldeia onde Matilde cresceu, Paris, campos da Europa onde o General combateu.

Acção e Estrutura Externa e Interna

Estrutura Externa

Estrutura dual: «Peça em dois actos», a que correspondem momentos diferentes da evolução da diegese dramática.

No Acto I é feita a apresentação da situação, mostrando-se o modo maquiavélico como o poder funciona, não olhando a meios para atingir os seus objectivos, enquanto que o Acto II conduz o espectador ao campo do antipoder e da resistência.

Não apresenta qualquer divisão em cenas. Estas são sugeridas pela entrada e saída de personagens e pela luz.

Estrutura Interna

Não se trata de uma obra que respeite a forma clássica nem obedeça à regra das três unidades (de lugar, de tempo e de acção). No entanto o esquema clássico está implícito (exposição, conflito, desenlace).

A apresentação dos acontecimentos processa-se pela ordem natural e linear em que ocorrem, facilitando assim a sua compreensão.

Acção

A acção desenrola-se a partir da figura histórica do general Gomes Freire que foi acusado de conspirador e é enclausurado na prisão de São Julião da Barra. A figura do General está sempre presente, do princípio ao fim, embora nunca apareça.

Título

O titulo da peça, Felizmente Há Luar!, aparece duas vezes ao longo da peça, ora inserido nas falas de um dos elementos do poder, D. Miguel, ora inserido na fala final de Matilde. Em primeiro lugar é curioso e simbólico o facto de o título coincidir com as palavras finais da obra, o que desde logo lhe confere circularidade. D.Miguel: salientando o efeito dissuasor das execuções, querendo que o castigo de Gomes Freire se torne um exemplo e Matilde: na altura da execução são proferidas palavras de coragem e estímulo, para que o povo se revolte contra a tirania. Num primeiro momento, o título representa as trevas e o obscurantismo, num segundo momento representa a caminhada da sociedade em busca da liberdade.

Como facilmente se constata a mesma frase é proferida por personagens pertencentes a mundos completamente opostos: D.Miguel, símbolo do poder, e Matilde, símbolo da resistência e do anti-poder. Porém o sentido veiculado pelas mesmas palavras altera-se em virtude de uma afirmação dar lugar a uma eufórica exclamação. Para D.Miguel, o luar permitiria que as pessoas vissem mais facilmente o clarão da fogueira, isso faria com que elas ficassem aterrorizadas e percebessem que aquele é o fim último de quem afronta o regime. A fogueira teria um efeito dissuasor. Para Matilde, estas palavras são fruto de um sofrimento interiorizado reflectido, são a esperança e o não conformismo nascidos após a revolta, a luz que vence as trevas, a vida que triunfa da morte. A luz do luar (liberdade) vencerá a escuridão da noite (opressão) e todos poderão contemplar, enfim, a injustiça que está a ser praticada e tirar dela ilações. Há que imperiosamente lutar no presente pelo futuro e dizer não à opressão e falta de liberdade, há que seguir a luz redentora e trilhar um caminho novo.

Anexos

Figura 1: Relações e sentimentos entre as personagens

Figura 2: Intencionalidade da obra

Figura 3: Texto dramático



423 Visualizações 01/07/2016