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Resumo/Apontamentos sobre Fernando Pessoa: Ortónimo e Heterónimos, realizado no âmbito da disciplina de Português (12º ano).
Na poesia de Ortónimo coexistem duas vertentes: a tradicional e a modernista. Algumas das suas composições seguem na continuidade do lirismo português, com marcas do saudosismo; outras iniciam o processo de ruptura, que se concretiza nos heterónimos ou nas experiências modernistas;
A poesia, cujo conjunto Pessoa queria dar o título Cancioneiro, é marcada pelo conflito entre o pensar e o sentir, ou entre a ambição da felicidade pura e a frustração que a consciência de si implica;
Pessoa procura, através da fragmentação do eu, a totalidade que lhe permita conciliar o pensar e o sentir. A fragmentação está evidente, por exemplo, em Meu coração é um pórtico partido, ou nos poemas intervencionistas Hora Absurda e Chuva Obliqua;
O intervencionismo entre o material e o sonho, a realidade e a idealidade surge como tentativa para encontrar a unidade entre a experiência sensível e a inteligência;
O Ortónimo tem uma ascendência simbolista evidente desde os tempos de Orpheu e do Paulismo;
A poesia do Ortónimo revela a despersonalização do poeta fingidor que fala e que se identifica com a própria criação poética, como impõe a modernidade. O poeta recorre à ironia para por tudo em causa, inclusive a própria sinceridade que, com o fingimento, possibilita a construção da arte;
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Na obra de Caeiro, há um objectivismo absoluto. Não lhe interessa o que se encontra por de trás das coisas. Recusa o pensamento, sobretudo o pensamento metafísico. Para representar esta temática, podemos recorrer a alguns versos do “guardador de rebanhos”:
“Porque pensar é não compreender ...”
“O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos)”
“Pensar incomoda como andar à chuva”
“Porque o vejo. Mas não penso nele”
“O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.”
“Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar”
Caeiro é o poeta do olhar, procura ver as coisas como elas são, sem lhes atribuir significados ou sentimentos humanos. Considera que as coisas são como são. Este aspecto da poesia do “Mestre” pode ser comprovado nos seguintes versos:
“As cousas não têm significação: têm existência.”
“Cada coisa é como é”
“Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,”
“A luz é a realidade imediata para mim”
A poesia de Caeiro é construída através das sensações, apreciando-as como boas por serem naturais (para ele o pensamento torna a realidade abstracta/confusa, tornando-a “irreal”).
“Para além da realidade imediata não há nada”
“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...”
“Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar”
“E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.”
Caeiro vê o mundo sem a necessidade de explicações, sem princípio nem fim, e confessa que existir é um facto maravilhoso, por isso crê na “eterna novidade do mundo” (“Sinto-me nascido a cada momento”).
Condena o excesso de sensações, pois a partir de um certo grau de sensações passam de alegres a tristes. Podemos comprovar isto, temos por exemplo:
“Me sinto triste de gozá-lo tanto.”
Caeiro escreve espontaneamente, sendo a sua poesia inegavelmente natural, como podemos verificar nos seguintes versos:
“Não me importo com as rimas”
“E a minha poesia é natural como o levantar-se vento...”
“E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer ora errando,”
Optando pela vida no campo, acredita na Natureza, defendendo a necessidade de estar de acordo com ela, de fazer parte dela. Para comprovar este facto, temos os seguintes versos:
“E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.”
“Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,”
O “Mestre” mostra-se um poeta pagão, que sabe ver o mundo dos sentidos, ou melhor, sabe ver o mundo sensível onde se revela o divino, em que não precisa de pensar, como podemos ver em:
“Não acredito em Deus porque nunca o vi”
“Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;”
“E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,”
O poeta confessa, no poema “guardador de rebanhos”, não ter “ambições nem desejos”. Ser poeta é a sua “maneira de ficar sozinho”.
Ao analisar os poemas de Alberto Caeiro (anexos) pode concluir que o poeta utiliza:
Composição poética: verso livre; ausência de rima e métrica regular; esquemas rítmicos diversos; presença de assonâncias; de aliterações e de onomatopeias.
Linguagem: simples, repetitiva, oralizante e prosaica; rara adjectivação; predomínio do verbo “ser” e do Presente do Indicativo.
Sintaxe: simples, com predomínio da coordenação.
Estilo: discursivo, com uso de paralelismos, assíndetos, polissíndetos, tautologias, comparações e metáforas.
Na poesia de Ricardo Reis, há um sentimento da fugacidade da vida, mas ao mesmo tempo uma grande serenidade na aceitação da relatividade das coisas e da miséria da vida. Para o poeta, a vida é efémera, ou seja curta, e o futuro é imprevisível, sendo por isso que Reis estabelece uma filosofia de vida: “carpe diem”, isto é, aproveitar o momento, o prazer de cada instante. Estas temáticas estão presentes nos seguintes versos:
“Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem”
“Breve o dia, breve o ano, breve tudo.
Não tarda nada sermos”
“O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.”
Embora tema a morte, pois desconhece-a, não contesta as leis do destino, às quais nem os deuses são superiores, e por causa das quais afirma não ter liberdade:
“Como acima dos deuses o Destino
É calmo e inexorável,”
“Na sentença gravada do Destino”
Reconhecendo a fraqueza humana e a inevitabilidade da morte, Reis procura uma forma de viver com um mínimo de sofrimento. Para isso, defende um esforço lúcido e disciplinado para obter uma calma qualquer. Para comprovar isto, temos como exemplos os versos:
“Igual é o fado, quer o procuremos,
Quer o 'speremos”
“O Fado cumpre-se.”
“O Fado nos dispõe, e ali ficamos”
“Só nós — ó tempo, ó alma, ó vida, ó morte! —“
Sendo um epicurista (pessoa dada à satisfação dos sentidos), o Poeta procura o prazer, sabiamente gerido, com moderação e afastado da dor. Reis afirma que o ser humano deve ordenar a sua conduta de forma a viver feliz, procurando o que lhe agrada.
“Na sentença gravada do Destino
Quero gozar as letras.”
“Tanto quanto vivemos, vive a hora”
“Cada dia sem gozo não foi teu”
“Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!”
“Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quise'ssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.”
“Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,”
A obra de R. Reis apresenta um epicurismo triste, uma vez que busca o prazer relativo, uma verdadeira ilusão de felicidade, pois sabe que tudo é transitório. Podemos comprovar este facto nos seguintes versos:
“Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho”
“Vem sentar-te, comigo, Lídia”
“A vida que deslembro,
Assim meus dias seu decurso falso”
“Na inteira liberdade
Que é a ilusão que agora
Nos torna iguais dos deuses.”
Próximo de Caeiro, há na sua poesia um fascínio pela natureza onde busca a felicidade relativa, como se comprova nos seguintes versos:
“E os olhos cheios
De Natureza ...”
“E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.”
Ricardo reis refugia-se na aparente felicidade pagã que lhe atenua o desassossego. Procura alcançar a quietude e a perfeição dos deuses, desenhando um novo mundo à sua medida:
“E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.”
“Tão pouco livres como eles no Olimpo,”
“Quer sobre o ouro de Apolo
Ou a prata de Diana”
“E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas”
O poeta afirma a crença nos deuses e nas presenças quase-divinas que habitam todas as coisas. Afirma que os homens devem ter um “fado voluntário”, isto é, fingirem que são donos de si mesmos. Nos seguintes versos podemos confirmar esta temática de Reis:
“Acima de nós-mesmos construamos
Um fado voluntário
Que quando nos oprima nós sejamos
Esse que nos oprime,
E quando entremos pela noite dentro
Por nosso pé entremos.”
“Os deuses concedem
Aos seus calmos crentes
Que nunca lhes trema
A chama da vida”
“A nossa vista as casas,
Podemos crer-nos livres.”
“Feliz em suma — quanto a sorte deu
A cada coração o único bem
De ele poder ser seu.”
Ao analisar os poemas de Ricardo Reis (anexos) pode concluir que o poeta utiliza:
Composição poética: ode (tem a sua origem na poesia clássica grega), composição poética de exaltação, era dotada de um esquema rígido na época clássica, mas os poetas modernos abandonaram essa rigidez e usaram-na com esquemas variados.
Verso: regular – decassílabo alternado ou não com o hexassílabo; branco com recurso à assonância, à aliteração e à rima interior.
Linguagem: erudita, latinizante (recurso a latinismos – utilização de locuções ou palavras própria da língua latina), como “vólucres, “insciente”, “óbulo”, “ínfero”, “estígio”. Uso frequente do Gerúndio e do Imperativo.
Sintaxe: complexa, com predomínio da subordinação.
Estilo: denso, cuidadosamente construído, através de anástrofes (inversão da ordem normal das palavras para se dar mais realce ao pensamento), hipérbatos (alteração da ordem mais comum das palavras, prejudicando a clareza da expressão) e perífrases que remetem para a mitologia grega e latina. Submissão da forma ao conteúdo.
Álvaro Campos é o poeta que, numa linguagem impetuosa e excessiva fala do mundo contemporâneo, celebra o triunfo da máquina, da força mecânica e da velocidade. Dentro do espírito do modernismo, exalta a sociedade e a civilização moderna com os seus valores e a sua “embriaguez”; como podemos confirmar nos versos seguintes:
“Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!”
“E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!”
“Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!”
“Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!”
“Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;”
“A maravilhosa beleza das corrupções políticas,”
“Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,”
“Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! -
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.”
“Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!”
Diferente de Caeiro (seu “mestre”), que considera a sensação de forma tranquila e saudável, mas rejeita o pensamento, Campos procura a totalização das sensações, conforme as sente ou pensa, e que lhe causa tensões profundas. Como sensacionalista, é o poeta que melhor expressa as sensações da energia e do movimento, bem como as sensações de “sentir de todas as maneiras”. Para ele a única realidade é a sensação.
Em Campos há vontade de ultrapassar os limites das próprias sensações, numa vertigem insaciável, que o leva a querer “ser toda a gente e toda a parte”. Numa atitude unanimista, procura unir em si toda a complexidade das sensações.
Para demonstrar as últimas duas características de Campos temos os seguintes versos:
“Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.”
“Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!”
“Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo”
“Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,”
“Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos”
“De expressão de todas as minhas sensações,”
“Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!”
“E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios”
Passada a fase eufórica, o desassossego de Campos leva-o a revelar uma fase de “depressão”, a ponto de desejar a própria destruição. Há ai a abulia (perda da força de vontade) e a experiência do tédio, a decepção, o caminho do absurdo. Nesta fase verifica-se a presença do niilismo (redução ao nada) em relação a si próprio, embora reconheça ter “todos os sonhos do mundo”.
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
“A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco”
“Começo a conhecer-me. Não existo.”
“Mal sei como conduzir-me na vida”
“Eu sou um internado num manicómio sem manicómio”
“Pobre velha casa da minha infância perdida”
“Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!”
“Minhas conclusões práticas, inúteis...”
Álvaro de Campos evolui ao longo de três fases:
Na primeira fase, encontra-se o tédio de viver, a morbidez, o decadentismo, a sonolência, o torpor e a necessidade de novas sensações, como exemplo desta fase temos o poema “Opiário”.
“É antes do ópio que a minh’alma é doente.”
“Não faço mais do que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.”
“Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só cansaço”
“Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento.”
“E ver passar a Vida faz-me tédio.”
“Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.”
Na segunda fase, há um excesso de sensações, a tentativa de totalização de todas as possibilidades sensoriais e afectivas (unanimismo), a inquietude, a exaltação da energia de todas as dinâmicas, da velocidade e da força até situações de extremas. Para comprovar esta fase de Campos temos os poemas Ode Triunfal e Ode Marítima.
“E arde-me a cabeça de vos querer cantar com excesso
De expressões de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquina!”
“Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!”
“Olho pró lado da barra, olho pró indefinido”
“Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.”
“Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui…”
“Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente a minha.”
“E depois a gritar, numa voz já irreal, a estoirar no ar:”
“Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh
Eh-lahô-lahô-lahO-lahá-á-á-à-à!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh”
Na terceira fase, perante a incapacidade das realizações, volta ao abatimento, a abulia, a revolta e o inconformismo, a dispersão e a angústia, o sono e o cansaço; como podemos confirmar nos poemas “O que há em mim é sobretudo cansaço”, “Esta velha angústia”, etc.
“O que há em mim é sobretudo cansaço-“
“Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço”
“A sutileza das sensações inúteis,”
“Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:”
“Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,”
“Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum”
“Pobre velha casa da minha infância perdida”
Ao analisar os poemas de Álvaro de Campos (anexos) pode concluir que o poeta utiliza:
Composição poética: ode; quadra; verso em geral muito longo; ausência de rima; recurso à onomatopeia, à aliteração, assonância e à rima interior.
Linguagem: simples, repetitiva, mistura de registos de língua; uso de interjeições; estrangeirismos, neologismos.
Sintaxe: construções nominais infinitas e gerundivas.
Estilo: esfusiante, torrencial; com recurso a onomatopeias, anáforas, apóstrofes, enumerações, oximoros; pontuação expressiva (exclamação, interrogações, reticências).