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Pedro Jacob Morais

Escola

Escola E. B. 2,3/S de Celorico de Basto

Interpretando a Retórica

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Resumo do trabalho

Trabalho escolar sobre a interpretação da retórica, realizado no âmbito da disciplina de Filosofia (11º ano).


Sobre a retórica

Em determinada altura da história, o Homem sentiu que viver em cavernas, passar frio e fome e venerar a deusa-mãe, começava a tornar-se insustentável. Decidiu então evoluir, construiu casas mais confortáveis, desenvolveu novos instrumentos de caça, passando a alimentar-se melhor. Ora, foi exactamente esta melhoria das condições de vida que lhe permitiu passar à fase seguinte, isto é, a cultura. Devemos então admitir que o conforto foi o seu mecanismo despoletador, pois, tal como dizia o professor Agostinho da Silva: “As pessoas só começam a interessar-se pela cultura quando estiverem bem alimentadas, viverem na casa que desejam, tiverem um bom emprego…”.

Este desenvolvimento tecnológico deu-se a uma velocidade verdadeiramente estonteante, as cavernas deram lugar às cabanas e estas às grandes civilizações. Apareceram os Pré-Incas, os Incas e os Maias, verdadeiros prodígios tecnológicos, ainda hoje desconfortavelmente inexplicáveis. Vieram os Egípcios, e com eles a matemática e a medicina, os Sumérios e a sua escrita cuneiforme. Começava-se a desenvolver o que Platão chamaria de “mundo das ideias” e que hoje não é mais do que a fruição que o Homem faz do Real. Depois apareceram os Fenícios e deram o derradeiro impulso à cultura, o alfabeto, finalmente o Homem podia gravar os seus conhecimentos de forma mais eficiente. Tendo como base o alfabeto fenício, os alfabetos Grego, Árabe e Hebraico foram inventados, e com eles o Homem tornou-se contador de histórias, criou deuses, o paraíso, o inferno e o pecado, o Bem e o Mal, o Ying e o Yang, em suma, fabulizou o Real. Começava a errar por caminhos perigosos, a brincar com o fogo…

Chegamos então ao povo que motivou este meu trabalho, os Gregos, que se dedicaram de corpo e alma à arte, ciência, política e filosofia. Na Grécia, o Homem conheceria desafios verdadeiramente estimulantes, como tal, novas necessidades empunham-se, falar em público era uma delas. Não será incorrecto concluir que, numa cultura civilizada, a política é fundamental. Afinal é ela que sustenta desde o mais pequeno país ao maior império. Contudo, para que a política possa existir são necessários homens com as devidas qualificações, capazes de falar em público, defendendo as suas teses, esquivando-se dos ataques dos adversários, ou seja, detentores dos mais variados tipos de mecanismos verbais que conseguissem convencer um determinado auditório. A necessidade aguça o engenho e é então que vindos do nada surgem os Sofistas, professores itinerantes, mestres de todas as ciências, inventores da retórica, dispostos a ensinar quem quer que pagasse o justo preço dos seus valiosos ensinamentos.

Os sofistas diziam-se de facto senhores da verdade, uma vez que para eles a verdade era relativa, como tal achavam-se capazes de defender qualquer tese, por mais rebuscada que fosse, vencendo assim qualquer contenda verbal, recorrendo para tal a falácias ou argumentações defeituosas se a situação o exigisse, acabava de ser criado o conceito de professor e de retórica, os quais se estenderam até aos nossos dias. Os seus alunos encontravam-se agora num nível muito superior ao dos seus adversários, conseguindo conquistar os cargos políticos que almejavam e, desta forma, alguns sofistas começaram a ganhar fama, respeito, dinheiro e, logicamente, inimigos. Um desses fervorosos inimigos foi Platão, que nos seus diálogos forjou uma imagem errada e negativa dos sofistas, imagem que os acompanhou até aos dias de hoje.

Com Platão deu-se início à famosa dicotomia filosofia/retórica, afastando-as como se de duas disciplinas antagónicas se tratassem. Uma tornou-se o antípoda da outra, tendo a retórica sido desvalorizada, como um instrumento menor. E, de facto, esta concepção da retórica subsistiu durante muitos séculos, resistindo ao declínio da Grécia e à ascensão e consecutiva queda do império romano. Devo, neste ponto, fazer referência a um fenómeno particularmente relevante: a rápida disseminação do cristianismo, iniciada em pleno império romano, plantando firmemente as suas raízes na actual Europa, começando a ganhar poder, como um cancro. Ora, enquanto esta nova religião ia conquistando cada vez mais fiéis, a filosofia via cada vez mais dificultada a tarefa de chegar às pessoas, ou talvez seja mais correcto dizer que cada vez menos gente estava aberta à filosofia. Haviam agora três fossos: filosofia, teologia, retórica. É então que se dão a invasões bárbaras, Hunos, Vândalos, Saxões, ou seja, povos pouco abertos a questões filosóficas, ou a qualquer tipo de questão… Mas mesmo os bárbaros, muito lentamente, trocaram o martelo de Thor pela cruz de Jesus e o Cristianismo teve a oportunidade que almejava para proliferar novamente.

Estávamos então na Idade Média, o Homem regressara às cavernas… É inútil referir que durante este período a filosofia, como tudo o resto, foi praticamente esquecida, encarcerada nas trevas da biblioteca de um qualquer convento, a ganhar pó desde o declínio de Roma, impossibilitada de reaparecer, pois, excluindo o séquito eclesiástico, o qual não necessitava dela para nada, só havia pessoas a morrer à fome ou a definhar de peste, logo, com pouca disposição para filosofar. Foi a época das trevas, da decadência da vida, a mais bárbara da história da Humanidade. Mas então, deu-se uma reviravolta surpreendente! O Homem começou novamente a pensar por si, retoma os valores clássicos, era a Renascença! A arte explode em ideias, a filosofia é ressuscitada e a física evolui como nunca. Este movimento só não foi mais significativo devido à irritante insistência da Inquisição em matar os seus principais impulsionadores.

Tal como disse anteriormente, a filosofia renasceu, tendo sido retomados os velhos valores clássicos, e com Descartes e o seu modelo de racionalidade científica, em que só o que é claro, evidente e objectivo é verdadeiro, o fosso que separava a retórica da filosofia aumentou ainda mais. Tínhamos então uma filosofia ligada a uma verdade dogmática e profundamente religiosa. Foi então que no séc. XIX a iconoclasta filosofia de Nietzsche (“Convicções são cárceres”) abriu caminho para a separação filosofia/teologia e para o aparecimento de novos autores que revolucionaram os conceitos clássicos.

Assim, é em pleno séc. XX que, através de Perelman e Toulmin, se dá a reabilitação da retórica e consequentemente a reconciliação entre as duas disciplinas, separadas há dois mil anos. Tudo isto se deve à reformulação de outro conceito que permanecera imutável desde Sócrates, a verdade, que abandonou o seu carácter universal, imutável e unívoco, passando a ser plural e mutável. Ora, esta mutabilidade da verdade causou algumas convulsões na filosofia, pois agora tornava-se necessário argumentar para defender as teses, passou a ser indispensável a concordância do auditório, a verdade deixava de ser universal, mas tendia para a universalidade. Assim, para obter a aprovação do auditório, o filósofo teve de se tornar um bom retor, retomar os ensinamentos dos sofistas, a velha arte de bem falar. Aqui vemos finalmente a importância dos sofistas, quer na retórica, quer na questão da verdade, pois a multiplicidade da verdade que estes defendiam, não está assim tão distante da mutabilidade da verdade de Perelman e Toulmin.

Também não nos devemos esquecer do facto que esta reabilitação da retórica ter reformulado o estatuto da ciência, que até então considerava o conhecimento objectivo, universal, verdadeiro, imparcial e totalmente capaz de descrever de forma plena o Real. Agora o conhecimento é considerado subjectivo, uma vez que o cientista pode ser influenciado pelos seus gostos (factores ideológicos, estéticos), ou financiamento que dispõe para uma determinada pesquisa (factores económicos); já não é verdadeiro, mas sim verosímil, devido à mutabilidade da verdade. Assim, agora para que um cientista veja a sua tese aprovada, terá de convencer o auditório, que neste caso é a comunidade científica, e para tal, terá de fazer uso de diversas técnicas argumentativas, da retórica.

Desta forma, é fácil concluir que a retórica não é uma disciplina menor, como até há bem pouco tempo a consideravam, mas sim um instrumento indispensável nas mais distintas áreas. Hoje em dia, um filósofo tem de ser um bom retor, assim como o cientista, o político ou até o estudante, sendo a retórica imprescindível no relacionamento humano, tornando-o mesmo mais interessante.

E chegamos ao fim deste trabalho, desta minha divagação sobre… pouca coisa, afinal, que tenta no entanto, mostrar a importância da arte de bem falar e dos seus mestres, da ciência e da filosofia, relacionando tudo isto com a evolução dos povos.



4 Visualizações 08/11/2019